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domingo, 28 de fevereiro de 2010

de par em par

Durante algum tempo, talvez bastante, a janela do meu peito estava enguiçada. Não conseguia fechá-la completamente e entrava-me o frio, o pó, a chuva. Também não consegui abri-la porque tinha medo que o sol entrasse e me ofuscasse os olhos e a alma e me estragasse a madeira com o seu calor. E assim estive, com a janela que nem abria nem fechava, todos os dias limpava o pó e protegia a madeira com tapetes, tanto passava frio como tinha calor, sempre indecisa. Há uns dias resolvi por fim abri-la de par em par, para que por fim pudesse sair o frio que afinal vinha de dentro da mim e não de fora. E agora aqui estou, desacostumada da intempérie, da luz do sol, do canto dos pássaros, desabituada de mim com a janela aberta, sem saber o que fazer a este inverno disfarçado de primavera.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A janela (novamente porque isto é um blogue que se presta a monotemas).

(De repente já não sinto raiva, não me apetece falar mais, não me apetece tomar uma decisão e tenho medo de ter medo.)

Deixei a janela aberta muito tempo, está tudo desarrumado, desalinhado, caótico, confuso, escuro e partido.
Por entre estes escombros caminho devagarinho, e, em silêncio, pé ante pé para não me fazer ouvir quero-me invisível.
Caminho muito devagar até à janela e quero fechá-la, e sei que o vou conseguir mas sei que talvez não seja no tempo que imagino nem com a força e determinação que ambiciono.
Talvez tenha de a fechar muito devagarinho e em silêncio e quase eu invisível com muito cuidado e delicadeza para ninguém me ver, para eu própria não me ver.
Não tenho forças. Não tenho forças para arrumar, não tenho forças para a fechar, não tenho forças para lutar e nem sequer tenho forças para ter raiva.

Acho que vou ficar assim quieta muito sossegada num canto desta sala que é o meu peito, em contemplação, a ver a janela a fechar-se sozinha, e só quando não houver uma réstia de luz aí sim vou poder descansar e vou dormir e vou deitar o meu corpo mesmo em cima do caos e dos cacos e dos restos, e recuperar todas as forças de que sou feita.
Irei surgir, não das cinzas como a Fénix, mas dos escombros que também ajudei a criar. E sinceramente não sei como vou surgir mas será certamente um pouco diferente.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

está uma senhora

Está uma senhora muito descansada na sua vida, com uma mão cheia de certezas e decisões - sim, que isto de crescer diz que acrescenta em sabedoria, uma espécie de visão raio-x que nos faz ver tudo claro, tão claro, claríssimo, num fulgor quase religioso.
Perdi-me e vou recomeçar: dizia eu que está uma senhora tão descansada na sua vida e descobre que tem uma janela aberta no peito (eu não deixei isto assim, sei bem os perigos das correntes de ar, uma constipação, um objecto que voa sala fora e se estilhaça no chão) e de repente essa senhora dá por si sem saber o que fazer com aquela janela.
Na dúvida, lança a pergunta às outras senhoras, companheiras de abrigo. O que deve a nossa heroína fazer?
a) fechar a janela antes que qualquer coisa em qualquer altura possa záas, senhora prevenida vale por duas ou três
b) deixar a janela aberta, afinal de contas não andam por aí tufões ao virar da esquina, senhora destemida vale por cem