sábado, 20 de junho de 2026

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Merditações

As fezes desfazem-se ao cair na loiça branca da sanita.
Se o intestino é um cérebro, também ele produz coisas fragmentadas forçadas e pouco satizfatórias.
Últimamente sinto sempre que fica muito por fazer. Muita merda que quer sair e não sai.
Oh como gostaria de defecar uma massa longa, consistente, lustrosa, saudável.
Que mesmo depois de embater com o seu peso na pia se mantivesse sólida e consistente.
Um corpo significativo que depois de expelido provocasse uma sensação de esvaziamento e conclusão.
Cujo cheiro fresco fosse sinal saudável das minhas funções vitais.
Mas tudo é pequenino e delgado e apenas um agregado instável de material variado em textura, forma e côr.
Assim são as minhas defecações e as minhas notas no telefone.
Olhar para as notas no telefone é tal e qual como olhar para as fezes no fundo da sanita em busca de alguma satisfação, de algum reconhecimento.
E depois limpo e limpo e limpo até não restar sombra de merda.
E inspeciono atentamente o papel até ter a certeza de que nada passará para as cuecas.
Da mesma forma que leio e releio estas notas para ter a certeza de que tudo fica aqui, no fundo da sanita e não na roupa.
Dentro da barriga e por fim no reto sinto essa massa alojada e em trânsito. Ausculto- lhe mentalmente as formas sucessivas antecipando a prazerosa expulsão.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Multidão


E de repente começou a aparecer gente de todo o lado.
Entes que nos sonhos e na vida insistem em entrar sem terem sido convidados, 
ano após ano, 
depois de décadas mantidos ao largo,
Rondam,
procurando obstinadamente uma entrada 
para nos massacrarem com recordações xaroposas dos velhos tempos 
Como se o passado continuasse a fazer sentido. Farejadores ávidos duma história em comum, de um idioma secretamente partilhado.
Agarram-se à ideia do passado como única fonte de vida por ser no presente onde morremos constantemente.
Mas eu, desapegada do sítio donde vim, ingrata e acéfala. Não transporto aquela ave morta na nuca, segundo Laurie Anderson.