terça-feira, 25 de novembro de 2025

Para


              É preciso muito mais do que isso. Para escrever o que a visão produz no cérebro, é preciso transformar as palavras num olho complexo absolutamente imerso no tecido da realidade.
É preciso escavar e amontoar a matéria até criar um imenso fantasma-réplica da vida.
Como explicar o que vejo através do vidro sujo da janela, braços de folhas agitando-se pesados como rolos de carne vegetal.
Como o pequeno vaso de vidro com uma palmeira dentro. Verde de água e cal velha nas paredes.
Ainda não consigo aceitar inteiramente que estou em casa.
A ideia do caderno não é idêntica ao caderno. A ideia de desenhar no caderno não tem nada a ver com ir buscá-lo, abri-lo e escrever ou desenhar dentro dele.
Pensar em fazer qualquer coisa não é em nada semelhante a fazê-la e é nesta dissemelhança constante que a minha depressão crónica se estrutura.
Escrever é isso mesmo. A dissecação dessa dissemelhança.
Aquilo que somos nada tem a ver com a ideia que os outros fazem de nós.
E no entanto somos entidades que congregam palavra e fenómeno.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Um quadrado

 
de veias e folhas pendentes avisa-me do outono branco cinza.
O meu rabo afunda-se no colchão e os óculos fazem-me doer os olhos. Pequenas ondas de calor inundam face, pescoço peito, virilhas. A roupa enrodilhada nas pernas forma um ninho de sono em volta.
Pela janela chega-me uma brisa de estrume morno que dia após dia vai implacávelamente destruindo esta minha ideia romântica de "campo".

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Que Chatice


Só a ideia de escrever sobre isso me põe doente.
Mesmo antes de tocar na coisa própriamente dita, mesmo antes de chegar a vislumbrá-la, encolho-me de nojo.

Mas não evito a inveja e o instinto homicida.

Sentimentos de repulsa rasgam-me e através destas feridas alguém aproveita para entrar. 

Acabou-se a luz do espírito. 

A mulher alimenta-se das crias agarrada à fantasia de lhes poder sobreviver.
Elas aproveitam as poucas gotas do seu leite para as últimas lições.
Agarrada ao irmão, escava túneis pela calada conseguindo obter todos os favores. 

A vida inteira lhe soube esfregar humildemente o ego como lâmpada de Aladino

Realizados todos os desejos,

Confunde o génio da lâmpada com Salomão.

Mas Salomão, que estende o olhar para além de todas as pessoas, tomará uma decisão que a ninguém satisfará inteiramente.
Porque a verdadeira justiça nunca recompensou ninguém. Reconduz  coisas e pessoas aos seus devidos lugares e muito pouca gente nesta vida está satisfeita com o lugar que lhe calhou.

Eu própria, também já tomada pela doença da família, me perco em solipsismos doentios que em nada me ajudam, agravando apenas uma horrível sensação de abandono.

Fadada a esta condição de filha adolescente, eternamente corroída pela inveja e pelo ciúme. 
Não sou eu também capaz de estar à altura.

E pergunto-me se serei algum dia mais qualquer coisa para além duma pobre adolescente em fuga.

Terei de matar toda a gente para ser capaz de existir por fim em liberdade?

A maçã nunca cai longe da árvore.

E esta trampa toda, para entretenimento dos doentes, parece não ter fim à vista.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Quadradinhos

Ultimamente ando com a sensação de que as coisas passam e já não voltam.

Uma tristeza infiltra-se nas conversas desmazeladamente disfarçada de irritação 
Deflagrando fatalmente em discussões absurdas, quezilentas, que se pegam à pele com um inescapável cheiro a merda.

Limpas o rabo com um quadradinho de papel absurdo 

Que se rompe 

E acabas com merda na ponta dos dedos.

De cada vez que voltas cheirá-los, lá está. Por mais que esfregues

A consciência cheira-te sempre a merda.

sábado, 1 de novembro de 2025

Monstro,
Tu nem te passa pela cabeça os desertos que eu já atravessei.